Duas bases do “Txingurri”

Por mais que conte com apenas cinco jogos oficiais disputados, o projeto dirigido por Ernesto “Txingurri” Valverde no Barcelona já começa a demonstrar as primeiras bases táticas estabelecidas pelo novo comandante. Duas, em especial. Porém, antes disto, é necessário considerar o passado mais recente do treinador. Durante as exitosas quatro temporadas em que foi o responsável pelo banco de reservas do Athletic Bilbao, o técnico de 53 anos ganhou fama por um estilo extremamente vertical, direto e aéreo na hora de atacar. Entretanto, como o próprio Valverde deixou claro em muitíssimas ocasiões durante o período, se tratou de um sistema elaborado para e a partir do veterano atacante Aritz Aduriz, algo que apenas se reforçou com a chegada experiente meio-campista Raúl García. Deste logo, não seria isto que se veria na Catalunha por uma simples questão lógica.

Por outro lado, mesmo tendo integrado o início do Dream Team de Johan Cruyff no final da década de 1980, também estava claro que Ernesto não seria o responsável por recuperar o típico jogo de posição imposto pelo lendário holandês e que tinha perdido importância durante as três campanhas sob o comando de Luis Enrique Martínez. Dito isto, a verdade é que o “Txingurri” tampouco parece disposto a mudar o estilo da equipe nos últimos anos, até porque haveriam apenas dois caminhos possíveis: recuperar o mencionado jogo de posição mais puro, algo que não irá acontecer, ou apostar por maior pragmatismo, uma situação que certamente seria insustentável dentro da cultura futebolística desenvolvida pelo mesmo Cruyff no conjunto Blaugrana. Ao final, as comparações envolvendo Valverde devem estar direcionadas ao trabalho prévio realizado por Luis Enrique.

Neste sentido, o primeiro ponto chave está na saída do extremo-esquerdo Neymar para o Paris Saint-Germain, algo que desmontou o famoso trio MSN e ofereceu opção de variação para Ernesto, especialmente considerando que o substituto do brasileiro, o jovem francês Ousmane Dembélé, pode atuar aberto pelos dois costados ao contrário de seu antecessor. É aqui que começam as mudanças de Valverde, que está abandonando o 4-3-3 habitual do Barcelona para apostar por uma espécie de 4-4-2 assimétrico que oferece uma zona central de partida para Lionel Messi. Dentro disto, ao contrário do que se podia imaginar com a saída de Neymar, a ideia vem sendo que o gênio argentino esteja mais relacionado com os metros finais do que com a elaboração no meio-campo, um papel que já vinha sendo realizado pelo craque nascido em Rosario desde o início deste ano.

O caso neste ponto é que Messi tinha reduzido suas zonas de influência em consonância com a última explosão futebolística de Neymar. Se primeiro havia sido Lionel o responsável por fazer a bola chegar aos metros finais para que o próprio brasileiro e o atacante Luis Suárez realizassem tarefas mais relacionadas com a definição dos lances, este cenário foi mudado nos últimos meses, com o novo craque do PSG assumindo as funções de carteiro – receber a bola em zonas recuadas, ganhar metros a partir de sua capacidade de drible em condução e entregar o esférico para Leo Messi no último terço do gramado –. Entretanto, esta tendência vem se mantendo mesmo com a saída do paulista de Mogi das Cruzes, sendo a primeira base tática que vem definindo o projeto de Valverde. De qualquer maneira, fa é cedo para alcançar maiores conclusões.

Em geral, ainda falta definir qual será o papel do recém-chegado Dembélé dentro desta ideia e também fica a dúvida de se a equipe será capaz de ativar Messi nos últimos metros sem que Lionel precise recuar em cenários de máxima exigência, especialmente considerando a aparente queda do interior Andrés Iniesta, que parece destinado a atuar como “falso extremo” pela esquerda no novo sistema, nos últimos meses. Em outra direção, o novo desenho tático do “Txingurri” está oferecendo uma companhia mais próxima ao mediocentro Sergio Busquets, que esteve francamente superado jogando sozinho na zona central por conta dos problemas do meio-campo do Barcelona nas recentes temporadas. Esta vem sendo a segunda base tática reconhecível de Ernesto, algo que ao mesmo tempo encaixa bastante com a alternativa contratação do interior brasileiro Paulinho.

Em um primeiro momento, se trata de uma alteração buscando reforçar a solidez da transição defensiva do time com uma segunda individualidade mais fixa pela zona central e oferecer maior liberdade para que Busquets possa avançar metros para pressionar em terreno rival (claramente sua principal qualidade tática), além de possibilitar que o mesmo Sergio, um meio-campista com dotes associativos em espaços reduzidos, coisa rara no atual elenco do clube, esteja próximo da versão mais atacante de Messi, algo que oferece ao argentino uma opção para combinações através de tabelas. Ademais, é necessário dizer que o interior direito Culé, o croata Ivan Rakitic nestes início de campanha, está ganhando maior peso em fase ofensiva em comparação com os últimos anos, aproveitando também a presença de um extremo puro no setor direito do gramado.

Habitualmente com Gerard Deulofeu aberto e Messi definitivamente pelo centro, a principal missão de Rakitic deixou de ser realizar movimentos compensatórios sem a bola, algo que lhe oferece maiores possibilidades de presença no jogo com o esférico nos pés, um quesito que ficou bastante claro no clássico deste sábado contra o Espanyol. Finalmente, como um detalhe de menor relevância, com Iniesta representando a peça ofensiva mais próxima do costado esquerdo, o responsável pela profundidade deste setor está sendo o lateral Jordi Alba, um mecanismo que encaixa com as características do antigo jogador do Valencia, que pode ser ativado ao espaço pelos passes em diagonal de Messi e possui a leitura necessária para executar um passe atrás nos metros finais para a chegada do próprio Lionel, um lance que resultou em dois gols contra os Periquitos.

FOTO: FC Barcelona

2 Comentários

  1. Não acha que quando perder o fator surpresa pode ser um sistema bastante deficiente? Digo, o normal é que o jogo fique mais focado na direita, e com o tempo a marcação nessa parte do campo deve evoluir também. Logo o Alba sempre é muito ativado com a lançamento do Messi mas agora o espanhol ta sozinho. É todo dele o lado esquerdo, ou seja, não vejo muito uma “distração” que libera o lateral, tipo o movimento interior do Neymar antes. Então colocar um jogador para defender aquela zona, de forma mais profunda (e sem se movimentar muito de acordo com a bola, sempre focado no Alba) não seria uma solução mais tranquila? E não deixaria o lado esquerdo quase inexistente?

    E outra dúvida, acha que esse esquema pode beneficiar o Andre Gomes? No Valencia ele me agradou tendo liberdade como interior esquerdo, e acho que o sistema consegue permitir isso. E ele é mais profundo que as outras opções, o que até ajudaria o Alba a conseguir o espaço.

  2. “É todo dele o lado esquerdo, ou seja, não vejo muito uma distração que libera o lateral”. A distração é justamente tornar o direito em lado forte e permitir que Alba ataque o setor contrário. Ademais, sempre os rivais do Barcelona defendem de forma estreita. É uma coisa que Messi obriga. Desta forma, Jordi vai chegar livre uma ou duas vezes por jogo como mínimo enquanto tiver pernas para isto.

    Já no caso do André Gomes… O seu problema não está no desenho tático, mas sim no estilo e em algumas deficiências que possui. Sem ir mais longe, seu grande ano no Valencia foi acelerando e transitando. No Barcelona nunca irá fazer isto.

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